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Entre desafios e conquistas, africanos(as) concluem mestrado interdisciplinar na Unespar, campus de Campo Mourão

geral, ensino

Ofelia Aida Victorino, de Moçambique, Albano Dias Malundo e João Augusto Domingos, ambos de Angola, foram os primeiros estudantes estrangeiros a se formarem no PPGSeD
por Érica Kalinovski publicado: 05/05/2026 09h04 última modificação: 05/05/2026 09h12

Três pesquisadores(as) africanos(as) cruzaram o Oceano Atlântico em busca de conhecimento. Eles(as) encontraram no Programa de Pós-Graduação Sociedade e Desenvolvimento (PPGSeD), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Campo Mourão, a oportunidade de que precisavam para seguir suas trajetórias acadêmicas por meio do mestrado. O trio, cada um com sua pesquisa, recebeu o título de mestre no início deste ano, tornando-se os(as) primeiros(as) estudantes estrangeiros(as) a se formarem no PPGSeD.

Ofelia Aida Victorino, de 29 anos, veio de Moçambique. Albano Dias Malundo, de 28, e João Augusto Domingos, de 29, vieram de Angola. Embora os dois jovens já se conhecessem, pois foram colegas de graduação em Geodemografia pela Universidade Agostinho Neto de Angola, acabaram perdendo o contato posteriormente e foram se reencontrar em Campo Mourão, no programa de pós-graduação na Unespar. “Desde Angola que eu tinha perdido o contacto com o Albano, por isso, quando saiu a lista dos alunos aprovados, fiquei surpreso”, contou João Augusto.

Durante parte do tempo de realização do mestrado, todos(as) residiram em um apartamento subsidiado pela Unespar, junto com outros três estudantes do programa de História Pública e um de Matemática. Para Ofelia, foi ainda mais desafiador, visto que ela não conhecia nenhum dos colegas e era a única mulher entre os moradores.

“Residir em uma casa com seis colegas, sendo a única mulher, foi um exercício de resiliência e afirmação. Embora o cenário inicial tenha sido desafiador e fora dos meus padrões habituais em Moçambique, essa vivência foi fundamental para fortalecer minha autonomia e minha capacidade de transitar em ambientes diversos, superando estranhamentos iniciais através do diálogo e da convivência cotidiana”, relatou a pesquisadora.

Adaptação cultural e amadurecimento acadêmico de Ofelia

Graduada em Contabilidade, com habilitação em Auditoria, em seu país de origem, Ofelia desenvolveu a pesquisa “Transparência digital em Moçambique e no Brasil: uma análise interdisciplinar dos portais eletrônicos” no PPGSeD, sob orientação do prof. Dr. Jorge Leandro Delconte Ferreira, que também é vice-diretor do Campus de Campo Mourão. A defesa da dissertação aconteceu no dia 24 de fevereiro, na instituição.

Ela comentou brevemente o mote de sua pesquisa. “Na Unespar, pude confrontar a realidade moçambicana com as práticas brasileiras, o que me permitiu desenvolver uma pesquisa comparativa sobre portais de transparência. Essa experiência não apenas solidificou minha base teórica, mas me deu a maturidade necessária para propor, agora no doutorado, um estudo profundo sobre governança corporativa nas empresas públicas moçambicanas”, explicou.

Para o orientador, a pós-graduada cumpriu com êxito o propósito da pesquisa, embora tenha enfrentado dificuldades ao longo do percurso. No Brasil, ela lidou com um choque cultural, especialmente no âmbito acadêmico, já que sua formação, desde a educação básica até a graduação, difere significativamente da realidade brasileira. O docente comentou, como exemplo, a própria língua. Apesar de a orientanda ter vindo de um país lusófono, isto é, que tem o português como língua oficial, apresenta variações significativas em relação ao português utilizado no Brasil.

Esse foi um dos pontos mais desafiadores destacados por Ofelia durante a sua permanência em Campo Mourão desenvolvendo pesquisa no PPGSeD. “Embora Moçambique e Brasil compartilhem a Língua Portuguesa, as diferenças de sintaxe, vocabulário e prosódia – influenciadas pela norma europeia em meu país – exigiram um esforço constante de tradução cultural. Essa experiência refinou minha habilidade de comunicação, tornando-a mais versátil e adequada a diferentes públicos e contextos acadêmicos”, salientou.

Apesar dessa e de outras adaptações necessárias, ela também teve experiências positivas e enriquecedoras. Recebeu apoio constante do orientador, considerando fundamental a descoberta de uma nova forma de relação professor-aluno. “Essa relação é muito mais aberta e acessível do que o modelo estritamente hierárquico ao qual eu estava habituada em Moçambique”, revelou Ofelia.

Como orientador, que acompanhou de perto essas nuances, o professor Jorge avaliou positivamente a forma como Ofelia lidou com todas as mudanças. “No final das contas, ela conseguiu finalizar o mestrado com êxito – não sem dificuldades. Foi muito desafiador para ela, e ainda mais desafiador por conta de ela ter saído de todo o “mundo” que tinha e ter vindo para cá. Mas para nós também foi uma experiência muito interessante, muito rica, e pudemos aprender bastante. O que eu tenho a dizer para a Ofelia, e, inclusive, já disse, é ‘Kanimambo’, palavra na língua local para dizer ‘obrigado’”, refletiu o docente.

Atualmente, a recém-mestre reside em São Paulo e pretende dar continuidade aos estudos, realizando doutorado em sua área de formação.

Ampliação de perspectivas e experiências de João Augusto

Com trajetória marcada pelo interesse nas dinâmicas populacionais e no desenvolvimento, João Augusto, por sua vez, encontrou no PPGSeD a oportunidade de ampliar sua formação em Geodemografia, com especialização em Demografia, para além de uma abordagem estritamente quantitativa. Antes de ingressar no mestrado, atuou na área de População e Desenvolvimento, no Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA-ANGOLA), experiência que contribuiu para o amadurecimento de seus objetivos acadêmicos.

“Estar constantemente com profissionais da ONU, que grande parte deles já tinha uma carreira acadêmica assinalável, despertou em mim a necessidade de buscar por mais formação acadêmica. Sendo de uma área mais quantitativa, inicialmente, o meu objetivo era continuar ao nível da Pós-Graduação na área da Demografia. No entanto, depois de dois anos, fui trabalhar para uma ONG que lidava com questões de desenvolvimento, e foi isso que motivou a buscar um programa de Pós-Graduação com as características do PPGSeD”, explicou.

Nesse sentido, destacou aspectos positivos da experiência no programa da Unespar, como a diversidade de formações entre os(as) colegas e a dinâmica das disciplinas. “A minha passagem pelo PPGSeD foi uma experiência única. Primeiro, por ter tido colegas de formação várias, o que contribuiu bastante para a qualidade das discussões em sala de aula”, afirmou. Ele também ressaltou a presença de mais de um professor por disciplina e a disponibilidade do orientador como fatores que favoreceram o processo de aprendizagem.

Entre os principais desafios enfrentados durante o mestrado, João Augusto apontou a necessidade de mudança de perspectiva teórica. “Aponto como maior desafio, durante o processo da minha formação, ter que deixar de pensar disciplinar para passar a pensar interdisciplinarmente”, explicou, destacando o esforço exigido para construir uma dissertação com esse viés.

Sua pesquisa, intitulada “Políticas de erradicação da pobreza e da fome em Angola: análise dos desafios, estratégias e oportunidades para o desenvolvimento sustentável”, foi defendida em 26 de fevereiro, no Campus de Campo Mourão, sob orientação do prof. Dr. Marcos Clair Bovo, que atualmente também é coordenador do programa. O trabalho aborda questões centrais para a realidade angolana, com ênfase na relação entre pobreza, saneamento básico e insegurança alimentar.

De acordo com o orientador, João Augusto apresentou um desempenho marcado por proatividade, rigor ético e autonomia intelectual ao longo de sua trajetória acadêmica. “Durante todo o percurso, demonstrou ser um discente super assíduo, aliando autonomia intelectual a uma notável resiliência frente aos desafios da pesquisa. Sua capacidade de planejamento e o cumprimento rigoroso dos prazos evidenciaram organização, enquanto seu pensamento crítico elevou a qualidade dos debates teóricos e práticos no ambiente acadêmico. Essas qualidades comportamentais e intelectuais foram fundamentais para a condução de um trabalho de alto nível”, disse o professor Marcos.

A pesquisa, segundo o docente, se destaca tanto pela análise aprofundada dos problemas quanto pela proposição de caminhos viáveis para sua superação. “João Augusto entrega à comunidade científica e social um trabalho rigoroso, engajado e com alto potencial de aplicabilidade. Sua pesquisa reflete a excelência de sua postura acadêmica e contribui de forma significativa para a construção de um futuro mais justo e sustentável em Angola”, destacou.

Sobre a vivência em Campo Mourão, o angolano avaliou de forma positiva o período de cerca de um ano e meio, incluindo a experiência de moradia compartilhada com outros(as) estudantes estrangeiros(as). Atualmente, ele reside em Belo Horizonte (MG), onde cursa doutorado em Demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Após essa etapa, pretende realizar o pós-doutorado antes de retornar ao seu país de origem.

Vivências acadêmicas e processos de adaptação de Albano

Assim como Ofelia e João Augusto, Albano também construiu sua trajetória no PPGSeD a partir de desafios e adaptações, especialmente nos primeiros momentos de sua chegada ao Brasil. O início foi marcado por um atraso de duas semanas e pela necessidade de adaptação ao clima e ao ambiente acadêmico, visto que, antes de vir para Campo Mourão, ele estava em Goiânia (GO). “A minha trajetória no PPGSeD foi muito desafiadora a princípio”, relatou.

Com o tempo, no entanto, foi encontrando apoio tanto entre colegas quanto entre docentes e equipe técnica, o que contribuiu para sua integração. Ele destacou a acolhida recebida de outros(as) estudantes e professores(as), além do suporte institucional ao longo do percurso. “Fui me encontrando cada vez mais”, afirmou.

Durante o mestrado, o pesquisador participou de diversas atividades acadêmicas para além da sala de aula, ampliando sua rede de contatos e experiências. Entre elas, mencionou a participação em uma mesa-redonda, em Londrina, para discutir território, políticas públicas e corpo, além de eventos em outras cidades da região. Essas vivências, segundo ele, foram fundamentais para sua formação, tanto do ponto de vista acadêmico quanto pessoal.

Ao avaliar o programa, ressaltou o caráter interdisciplinar como um dos principais diferenciais. “Não foi um mestrado com fronteiras, não foram aulas que trazem respostas certas, antes, pelo contrário, é um espaço onde as partes se complementam, onde várias áreas dialogam”, destacou, evidenciando a proposta formativa do PPGSeD.

Os desafios enfrentados incluíram principalmente a adaptação climática e as condições iniciais de moradia. Durante parte do período, residiu em uma pensão, em um espaço compartilhado que considerou pouco adequado para estudantes, antes de ser realocado para o apartamento disponibilizado pela universidade. A convivência coletiva também exigiu adaptações. “Não foi uma convivência fácil”, comentou.

Sua dissertação, intitulada “Produção do espaço urbano em Luanda/Angola: abordagem sobre os bairros informais críticos através do bairro Mayombe”, foi defendida em 26 de março, no Campus de Campo Mourão, sob orientação da profa. Dra. Ana Paula Colavite e coorientação do prof. Dr. Fred Maciel.

A pesquisa buscou compreender os processos de produção do espaço urbano em Luanda, com foco em áreas periféricas marcadas por informalidade, articulando diferentes áreas do conhecimento, como Geografia, Demografia, Economia, História e Políticas Públicas. A abordagem metodológica combinou técnicas quantitativas e qualitativas, reforçando o caráter interdisciplinar do estudo.

Segundo a orientadora, a experiência de orientação foi também um processo de aprendizado e troca. “Não se tratava apenas de acompanhar um trabalho acadêmico, mas de construir um diálogo entre realidades distintas, mediado pelo conhecimento científico. A pesquisa dele tratou de um problema urbano complexo vivenciado em uma área periférica da capital Luanda, que, embora guarde semelhança com realidades brasileiras, me levou a compreender a cidade, o território e as desigualdades, a partir de outros prismas”, avaliou a professora Ana Paula.

Além disso, ela ressaltou o comprometimento do pesquisador ao longo do processo. “Destaco o comprometimento, a seriedade e a maturidade intelectual do Albano ao longo de todo o processo”, afirmou. Para ela, a pesquisa apresenta contribuições relevantes para os estudos urbanos e evidencia o potencial de uma trajetória acadêmica sólida, com impacto na compreensão das dinâmicas socioespaciais em contextos africanos e na formulação de políticas públicas.

Após permanecer aproximadamente nove meses em Campo Mourão, até cumprir todos os créditos das disciplinas, Albano foi para o Ceará, onde a esposa residia. Depois de concluir o mestrado, ele segue no Brasil e atualmente mora em São Paulo (SP). Seus planos incluem dar continuidade à formação acadêmica, com a realização do doutorado, antes de retornar ao seu país de origem.