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Estudante intercambista de Moçambique vinculado ao PPGHP compartilha experiências em entrevista exclusiva

Pesquisa

por Milleni Bezerra Moreira publicado: 05/10/2022 16h36 última modificação: 10/10/2022 14h52

Na última semana de setembro, o pesquisador do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em História Pública (PPGHP), Inácio Márcio de Jesus Fernando Jaquete concedeu entrevista à Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Campo Mourão, para discorrer acerca de suas vivências. O estudante foi contemplado com primeiro lugar do edital para bolsa-auxílio emergencial viabilizado pela Instituição, por intermédio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) e do Escritório de Relações Internacionais (ERI), que concedeu recursos financeiros para 5 (cinco) estudantes estrangeiros matriculados em cursos de pós-graduação stricto sensu, para que possam se manter no Brasil durante a realização do/a curso/disciplina.

Inácio, que é natural de Moçambique, país localizado no sudoeste do continente africano, conta que veio para o Brasil motivado pela pesquisa científica. O intercambista, que está no país desde o final de março, atualmente desenvolve o projeto intitulado “Partilhas de Memórias e Narrativas com os Mestres Moçambicanos na Interface com as Pinturas Rupestres de Chinhamapere” – monte localizado na província de Manica – que, para além de investigar o contexto de patrimônio material, também tem como objetivo percorrer as memórias de vida de anciãos, que vivem nas proximidades daquela região. De acordo com o estudante, “as pesquisas naquela região, que não são muitas, visam uma análise mais pedregal”, portanto também considera necessário promover o diálogo com a comunidade local, para perceber o significado sacro dessas pinturas e as atividades ritualísticas em relação as mesmas, visto que os moradores das comunidades rurais invocam a presença de seus antepassados, em relação à produtividade agrícola – que mantém a região. O projeto, em processo avançado de produção, já conta com a compilação de materiais e capítulos prontos, com previsão de qualificação para o mês de novembro.  

O estudante reforçou que, por meio da pesquisa, teve a oportunidade de ter contato com vários pensadores africanos, que desenvolveram seus estudos em torno do continente africano, e que isso possibilita um olhar contra-hegemônico, sob uma perspectiva que não é a eurocêntrica, uma vez que “a história e a cultura do continente, muitas vezes foi escrita por pessoas que desconheciam a concepção verdadeira do continente, pois muitas características são propriamente africanas”. Também frisou que, por meio da oportunidade de estágio, pôde desenvolver experiências interculturais com estudantes brasileiros, algo que considerou positivo, pois, de acordo com ele, os estudos sobre o Brasil ainda são escassos em seu país, visto que os conteúdos curriculares não contemplam, o que considerou negativo, uma vez que “Brasil e África tem laços muito fortes”; além disso, também destacou que pôde ter ciência de metodologias didáticas voltadas à licenciatura.

Inácio afirmou que “há a necessidade de olharmos para nós mesmos, mas, infelizmente, nos impediram de pensar”, enquanto segurava o livro “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1952) do pensador francês Frantz Fanon (1925-1961), mundialmente conhecido pelo desenvolvimento de obras frutos de estudos pós-coloniais. Além disso, também compartilhou que, em seus momentos de diálogos com sua orientadora, tem expressado sua inquietação com algumas questões observadas, como por exemplo, o uso e o valor semântico do termo “indígena” para identificar um certo grupo social, comparando essa questão ao contexto de vida particular, em que “o povo africano por muito tempo foi considerado indígena” e, que, “essa palavra foi utilizada em todas as colônias portuguesas”, para atribuir significado “àqueles que não assimilaram a cultura européia”, o que considera ter marginalizado povos nativos ao invés de lhes dar sentimento de pertencimento, algo que, de acordo com ele, só foi passível de mudança após a chegada da Independência. Dessa maneira, o estudante propõe a possibilidade de banimento do termo, visto que tribos brasileiras são denominadas Guarani, Cainguangue, entre outros, portanto “é possível chamar os grupos pelos próprios nomes”, pois “gostamos de falar sobre os indígenas, esses grupos que mantém suas tradições, mas é preciso pensar e rever a questão epistemológica”.

Inácio contou ainda que, “a vinda para o Brasil foi um desafio”, além de considerar “um momento de renascimento” possibilitado pelo acesso à Universidade a partir de um edital do ano de 2020. Em decorrência da pandemia de Covid-19, só pôde estar no país em 2022. Também afirmou que a permanência no país possibilitou a identificação enquanto africano, pois “o processo de branqueamento racial ao qual sua própria raça foi submetida não foi algo voluntário”, e que o trajeto feito até aqui o tem ajudado a pensar de maneira subversiva, algo considerado muito produtivo. Para ele, o contato com a Unespar, com o Programa, bem como com sua orientadora, a Prof. Dra. Cyntia Simioni França, doutora em Educação (UNICAMP) e mestre em História Social (UEL), trouxe sensação de acolhimento e “o transformou”, graças às experiências de aprendizado intelectual, cultural e social. 

A professora Cyntia ressaltou a importância do trabalho dessa temática, que considera emergente, não somente em relação ao lugar de onde o estudante veio, como também ao espaço que ocupa em território brasileiro, pois, com isso “é possível descontruir ideias racistas e preconceituosas, que, diariamente, se materializam em práticas estampadas em manchetes de jornais”. Para a mesma, este é o espaço para a afirmação identitária de um africano, em detrimento do “olhar hegemônico, proveniente de terceiros”. Completou afirmando que, “por onde Inácio passa, ninguém mais é o mesmo”.

Em relação ao resultado do edital que possibilitou a contemplação da bolsa-auxílio, Inácio considerou a ação importante, pois possibilita dedicação exclusiva à pesquisa, bem como a possibilidade de ministrar palestras como a que aconteceu no Colégio Darcy Costa de Campo Mourão; e a apresentação de trabalho em eventos como o XVIII Encontro Regional de História e o I Encontro Estadual de Ensino de História, da Agência Nacional de História – Seção Paraná (ANPUH-PR), intitulado “Nação, Povos e Territórios - Configurações e Reconfigurações”, realizado na cidade de Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 07 e 10 de setembro de 2022. Além dos eventos supracitados, o estudante ainda participará do círculo de cultura, com a temática “Línguas e Músicas: Vozes de Resistência Para Existir e Reexistir A Cultura Africana”, que será realizado no IV Seminário Afro [R]existência, promovido pelo Núcleo de Pesquisas Étnico-Raciais (NERA), do Centro de Educação em Direitos Humanos (CEDH), campus de Campo Mourão.

De acordo com o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Prof. Dr. Carlos Alexandre Molena Fernandes, “a internacionalização na Pós-Graduação da nossa Universidade coloca-se como um grande desafio. Nesse sentido, a PRPPG em parceria com o ERI tem demonstrado preocupação com a permanência e a qualidade da inclusão que é dada aos nossos alunos internacionais. Entendemos que não basta recebê-los oficialmente e assinar acordos internacionais sem observar de perto como os estudantes internacionais estão sendo recebidos e se adaptando. Portanto, a gestão da universidade tem promovido ações no sentido de proporcionar melhores condições de permanência para os estudantes estrangeiros, e desta forma além de promovermos a inclusão social destes alunos, estamos fomentando o processo de internacionalização dos nossos cursos de mestrado”.

 

Texto: Milleni Bezerra Moreira - Assessoria de Comunicação, campus de Campo Mourão (comunicacao.campomourao@unespar.edu.br - (44) 3518-1801).