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Conheça o intercambista de Angola vinculado ao PPGHP da Unespar

Pesquisa

por Milleni Bezerra Moreira publicado: 10/10/2022 14h32 última modificação: 10/10/2022 16h03

Na última semana de setembro, o pesquisador Sihilusangamo Kicani Pedro, do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em História Pública (PPGHP) participou da entrevista realizada pela assessoria de comunicação da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Campo Mourão, para discorrer acerca de suas vivências. O estudante intercambista foi um dos contemplados pelo edital que concedeu bolsa-auxílio emergencial viabilizado pela Instituição, por intermédio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) e do Escritório de Relações Internacionais (ERI), que concedeu recursos financeiros para 5 (cinco) estudantes estrangeiros matriculados em cursos de pós-graduação stricto sensu, para que possam se manter no Brasil durante a realização do/a curso/disciplina.

Na ordem de colocação do edital, Pedro, que está no Brasil há pouco mais de 10 anos, se classificou em segundo lugar para a categoria de auxílio anual – sendo os outros três lugares para a categoria de auxílio semestral –, juntamente com o estudante Inácio Márcio de Jesus Fernando Jaquete, pesquisador com quem divide trabalhos, afinidades, histórias, objetivos e ideais. Atualmente, o estudante tem desenvolvido o projeto de pesquisa intitulado “Partilhas de Narrativas dos Jovens Kuduristas nas Ruas de Luanda-Angola” – cidade e país de origem do estudante, respectivamente. Para além de investigar esse movimento cultural em Luanda, também tem como objetivo percorrer o contexto memorialístico de pessoas que o integram, especificamente os jovens daquela localidade.

O estudante relatou que, a princípio, sua vinda para o Brasil foi motivada pela crença religiosa, mais especificamente, por conta da instituição da qual faz parte, que, inicialmente oportunizou sua participação em um curso de Teologia, em Recife. De acordo com ele, após a participação no referido curso, seus líderes de Angola orientaram-no a considerar uma segunda graduação fora da esfera religiosa, para que isso complementasse o processo de formação profissional, uma vez que, de acordo com ele, em seu país, o exercício de cargos hierárquicos dentro da instituição à qual integra não prevê a mesma espécie de remuneração se comparado ao contexto brasileiro. Nesse sentido, Pedro formou em Jornalismo, pela Universidade de Ensino Superior de Londrina (Unopar) e, após isso, almejou ingressar em um novo curso de graduação, migrando para o curso de Design Gráfico, visto o interesse que o estudante tem por temas ligados à multimídia e artes do vídeo. O objetivo terminou por dividir espaço com a possibilidade de ingressar em curso de pós-graduação, quando, em 2020, Pedro soube da classificação para o PPGHP, que o levou a optar pela segunda opção.

O intercambista contou que, antes de sua classificação inicial, conheceu a Universidade e seus sete campi, e tomou conhecimento da existência de vagas para candidatos estrangeiros. À parte disso, confessou que, na entrevista que compunha a segunda fase do processo seletivo pelo qual foi aprovado, enfrentou dificuldades iniciais de adaptação pelo nervosismo em relação à apresentação remota de seu projeto, mas com auxílio externo de um amigo, revisou seu trabalho e se preparou para o momento. Apesar de dificuldades encontradas face às atividades realizadas no âmbito virtual, uma vez que enfrentou problemas de transmissão que dificultaram a explanação de seu trabalho, mesmo assim, a situação encontrou um desfecho favorável.

De acordo com Pedro, a ideia inicial que embasou seu projeto visava alcançar crianças que dançam o kuduro nas ruas de Luanda. Entretanto, segundo o mesmo, após diálogos com a orientadora, Prof. Dr. Cyntia Simioni França, doutora em Educação pela Universidade de Campinas (Unicamp) e mestre em História Social pela Universidade de Londrina (UEL), optou por mudar o público-alvo de seu trabalho, e passou a visar jovens adultos, que pudessem dar voz e mais vazão às suas experiências nesses espaços e ao impacto causado em suas vidas, uma vez que a fala desses indivíduos apresenta a possibilidade de maior maturidade, para fruição da produção de relatos. Reforçou que o objetivo é materializar essas experiências e permitir espaços de fala e aprendizagem, em relação à essa dança, e à cultura a qual é envolta, tomando como norte pontos como: o que o kuduro fez na vida desses jovens; até onde essa prática os/as levou; os estigmas em torno disso etc.

Segundo afirmou o estudante, é um trabalho “de acordo com a perspectiva dos fazedores de kuduro, e a perspectiva sobre os fazedores de kuduro”, considerando que há grande diferença entre a dança de origem africana e aquela que é reproduzida em território brasileiro. Nesse sentido, ressaltou que, no original, a música kudurista conta com uma mistura de batidas entre os gêneros techno e pop e, que, em relação à dança, há passos que articulam membros corporais superiores, que ficam “travados” enquanto os inferiores “se mexem”.  A própria etimologia da palavra remete ao significado literal – algo que, segundo ressaltou o estudante, ainda é motivo de preconceito e estigma social, por ter sido considerado “obsceno”, fato que prejudicou o processo de aceitação. Ainda assim, frisou que, “apesar da resistência em torno disso, o kuduro foi tombado como patrimônio cultural popular pelo Ministério da Cultura, em Luanda”.

O estudante também comentou que, após a realização de seu trabalho sob a orientação da professora Cyntia, sua perspectiva acerca da relação professor-aluno se modificou, uma vez que, por intermédio de um olhar humanizado, foi possível maior assimilação de conteúdos ministrados. Além disso, completou dizendo que, por meio da relação com os docentes do Programa, pôde observar as mais variadas didáticas do processo ensino-aprendizagem, e destacou a existência de um equilíbrio à medida em que há docentes que intensificam a construção do arcabouço teórico, e docentes que intensificam a realização prática de conteúdos componentes de disciplinas.

Nesse sentido, Pedro reforçou que esse processo foi gradativo e que em razão de seu desenvolvimento intelectual, cultural, social e psicológico, foi possível obter valiosos insights sobre toda a trajetória até aqui, algo que possibilitou que revisitasse conteúdos que foram objeto de estudos nos primeiros anos da graduação. Para o estudante, isso o incentiva na continuidade do processo de produção de sentidos, ainda que, de acordo com o mesmo, muitas vezes, isso possa não se apresentar de maneira linear. Ainda, em relação à bolsa-auxílio com a qual foi contemplado, o intercambista destacou a importância da iniciativa, destacando que, diferente do Brasil, “em Angola temos dificuldade em relação às bolsas de estudo, pela seguinte questão: ou você estuda ou trabalha, não é possível fazer os dois, portanto esse incentivo não existe”. Encerrou completando que, “antes de utilizarmos os recursos para os estudos, garantimos também nossos meios de sobrevivência”.

Assim como Inácio, Pedro também efetuou a apresentação de seu trabalho em eventos como o XVIII Encontro Regional de História e o I Encontro Estadual de Ensino de História, da Agência Nacional de História – Seção Paraná (ANPUH-PR), intitulado “Nação, Povos e Territórios - Configurações e Reconfigurações”, realizado na cidade de Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 07 e 10 de setembro de 2022. Em breve, os dois intercambistas, junto com a professora Cyntia, participarão do círculo de cultura com a temática “Línguas e Músicas: Vozes de Resistência Para Existir e Reexistir A Cultura Africana”, que será realizado no IV Seminário Afro [R]existência, promovido pelo Núcleo de Pesquisas Étnico-Raciais (NERA), do Centro de Educação em Direitos Humanos (CEDH), campus de Campo Mourão. datado para o dia 18 de novembro de 2022, às 19h30, de forma online e com inscrições gratuitas.

De acordo com o Coordenador do Programa de Pós-Graduação em História Pública (PPGHP) da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), Prof. Dr. Fábio André Hahn, “desde a primeira turma em 2019, temos estimulado o processo de internacionalização da Unespar. Primeiramente, lançamos um edital em português para atingir exatamente os falantes de língua portuguesa em outros países, como também um edital em espanhol para conseguirmos atrair estudantes latinos. Nos preocupamos com um processo que não parta apenas do ponto de vista dos docentes, mas, também, dos estudantes, por meio de uma integração com alunos de outros países, bem como da ida de nossos acadêmicos para fora do país”.

O professor Hahn reforçou que, “como forma de estratégia, o foco do Programa sempre se dividiu em duas vertentes principais: 1) um olhar para o continente africano (relações entre Brasil e continente africano de modo geral); 2) um olhar para os países latino-americanos (pela proximidade geográfica e de idioma)”. Ainda frisou que “o Programa de História Pública da Unespar é o primeiro da América Latina, visto que já existem programas pela América do Norte e Europa”, e completou dizendo que “recentemente estabelecemos uma parceria com a Universidade Nacional de Quilmes, da Argentina; em breve, a professora Cyntia também irá para Angola, bem como intermediaremos a vinda de uma docente angolana para ministrar aulas nas disciplinas do curso, sem contar o projeto de organização de quatro coletâneas sobre História Pública que estamos promovendo, com previsão para o lançamento de dois deles no próximo ano”.

Para além disso, também ressaltou que “a chegada e a permanência de estudantes como Inácio, Pedro e de outros estudantes estrangeiros, contribui para a Universidade de modo geral, uma vez que os mesmos estão envolvidos em atividades de ensino, pesquisa e extensão, tanto na pós-graduação, quanto na graduação” – mencionando a disciplina de História da África, da qual os estudantes tem participado ativamente. Por fim, o professor Hahn destacou que o apoio financeiro viabilizado pela Unespar, por intermédio da PRPPG e do ERI, “foi muito importante, pois, apesar da motivação para a realização dessas atividades com alunos estrangeiros na Universidade – que já tinham bolsas fomentadas por agências nacionais (nas quais não houve reajustes anuais) – sabemos que os valores de bolsas são insuficientes para que esses estudantes se mantenham no país, o que dificulta muito a permanência dos mesmos”.

Vale ressaltar que, atualmente, o Programa estará com inscrições abertas para o processo seletivo de ingresso na turma de 2023. Poderão participar do processo os graduados(as) em História ou áreas afins; estudantes que estejam cursando o último ano/período da graduação também, desde que comprovem a conclusão do curso até o início das aulas no Mestrado. Nessa seleção, serão ofertadas 16 vagas, divididas entre as duas linhas de pesquisa do programa: “Saberes e Linguagens” e “Memórias e Espaços de Formação”. As inscrições acontecerão entres os dias 28 de novembro de 2022 e 01 de fevereiro de 2023, sendo realizadas exclusivamente por meio do site do Programa, mediante envio de documentação e pagamento de taxa de inscrição.

 

Outras informações sobre o Programa, bem como sobre o processo seletivo estão disponíveis no link abaixo. Em caso de dúvidas deve-se entrar em contato pelo número (44) 3518-1838 ou endereço eletrônico historiapublica@unespar.edu.br.

 PÁGINA PPHGP (CLIQUE AQUI)

 

Texto: Milleni Bezerra Moreira - Assessoria de Comunicação, campus de Campo Mourão (comunicacao.campomourao@unespar.edu.br - (44) 3518-1801).